Doença viscerotrópica aguda por vacina da febre amarela

Doença viscerotrópica aguda por vacina da febre amarela A febre amarela consiste em uma doença viral aguda que é uma condição endêmica na África e na América do Sul. A vacinação é a única maneira eficaz de proteção contra a doença, visto que confere imunidade por pelo menos dez anos, podendo se estender pela vida inteira. Um dos eventos adversos da vacinação para a febre amarela é a doença viscerotrópica aguda, que se caracteriza por uma síndrome íctero-hemorrágica. No presente trabalho são relatados dois casos desta doença.

A febre amarela (FA) é uma doença viral aguda transmitida pela picada de insetos, principalmente pertencentes ao gênero Aedes e representa uma condição endêmica na África e na América do Sul. A Organização Mundial de Saúde estima que ocorram 200 mil casos dessa doença anualmente, mas que apenas uma pequena porcentagem desses casos seja identificada por causa da subnotificação. A última epidemia urbana de febre amarela no Rio de Janeiro ocorreu em 1929. Atualmente, estima-se que 95% da população residente em regiões endêmicas no Brasil tenha sido vacinada.

Suas manifestações clínicas variam desde um quadro febril leve até uma infecção grave, acarretando insuficiência renal e hepática, dano cardíaco, hemorragia e choque. Estima-se que apenas 10% sejam formas graves, associadas à elevada letalidade, variando de 20 a 50% dos casos. Seu diagnóstico é feito pela detecção no hospedeiro de anticorpos contra o vírus da FA, sendo o ELISA o teste mais usado.



A vacinação é a única maneira eficaz de proteção contra a doença, visto que confere imunidade por pelo menos 10 anos, ou mesmo pode se estender pela vida inteira. Dentro de 30 dias, mais de 90% dos vacinados desenvolvem anticorpos contra a febre amarela, sendo que aproximadamente 100% dos indivíduos tornam-se imunizados.

A vacina contra a febre amarela (VFA) deve ser indicada a todos que se deslocam para áreas de transmissão da doença a fim de preveni-la. É, ainda, exigida em alguns países para viajantes procedentes de regiões endêmicas para impedir a introdução do vírus. No Brasil, é recomendada para viajantes que se dirigem às regiões rurais endêmicas e de transição do país.

Estima-se que o risco de eventos adversos à vacinação para FA variou de 0,017 a 12 desfechos letais por um milhão de doses aplicadas e há relatos de que a incidência de efeitos sistêmicos graves após vacinação contra febre amarela é maior em indivíduos maiores de 60 anos. Um dos efeitos adversos da vacina para febre amarela é a doença viscerotrópica aguda (DVA) e, levando-se em conta a ampliação da área endêmica dessa doença, bem como as indicações para a vacinação e a detecção de casos de DVA, considera-se importante essa descrição. Assim, são a seguir relatados dois casos em que houve necessidade de investigação complementar para diagnóstico de doença viscerotrópica aguda.

A vacina para FA é sabidamente segura e eficaz, representando um marco importante no controle da doença. Suas complicações são mais frequentes em imunodeprimidos, o que se confirma nos casos aqui relatados com doença viscerotrópica aguda, eis que um deles apresentava como patologia sistêmica diabete mellitus e o outro esclerodermia. A realização de colangiografia transoperatória durante videocolecistectomia e arquivamento das suas imagens mostra-se útil para diagnóstico diferencial dos pacientes que vierem a desenvolver icterícia.
Por terem apresentado DVA, esses pacientes não devem ser revacinados, até porque muitos autores advogam que os anticorpos protetores produzidos após vacinação para FA podem durar até 35 anos no organismo, e, como os pacientes têm mais de 55 anos, provavelmente não tenham longevidade para necessitar de segunda dose dessa vacina; e, caso tenham, não há trabalhos que mostrem a segurança da vacina em indivíduos que já apresentaram doença viscerotrópica aguda após a primeira vacinação.
A importância deste relato deve-se ao fato de terem sido descritos no Brasil somente sete casos de DVA até o momento, dos quais cinco foram a óbito, e que em curto período foram identificados 2 novos casos, questionando-se se a prevalência é realmente baixa ou se pode estar havendo subnotificação dos casos que não têm evolução letal.
Após revisão da literatura, verifica-se a necessidade de estudos mais elaborados para haver melhor notificação dos casos de doença viscerotrópica aguda e também melhor estudo da fisiopatogenia dos eventos desencadeantes da DVA. E assim, tendo essa fisiopatogenia elucidada, podem-se buscar tratamentos específicos para a doença, visto que no momento apenas a terapia de suporte é indicada.




Parte deste artigo é: Revista da AMRIGS, Porto Alegre, 54: 443-448, out.-dez. 2010 – http://www.amrigs.org.br/revista/54-04/015-523_Doenca%20Viscerotropica.pdf